02 julho 2011

Alzheimer, eu sem mim



SOBRE ALZHEIMER: A doença de Alzheimer instala-se quando o processamento de certas proteínas do sistema nervoso central começa a dar errado. Surgem, então, fragmentos de proteínas mal cortadas, tóxicas, dentro dos neurônios e nos espaços que existem entre eles. Como conseqüência dessa toxicidade, ocorre perda progressiva de neurônios em certas regiões do cérebro, como o hipocampo, que controla a memória, e o córtex cerebral, essencial para a linguagem e o arrazoamento, memória, reconhecimento de estímulos sensoriais e pensamento abstrato. Estudos publicados na década de 1980 mostraram que a proteína que se acumula dentro dos neurônios (tau) dos doentes com Alzheimer, é diferente da que se acumula nos espaços existentes entre eles (beta-amilóide). A proteína beta-amilóide se deposita em placas que causam destruição de neurônios por criar processo inflamatório crônico nas regiões afetadas, interferir com a regulação de cálcio, essencial para a condução dos estímulos nervosos, e aumentar a produção de radicais livres, tóxicos para as células nervosas.

SIGNIFICADO DO TERMO DOENÇA DA ALMA: - ‘Psique' - conceito grego de "si-mesmo", abrangendo idéias modernas de alma, ego e mente. A expressão ‘psique' era usada como sinônimo de VIDA, tendo como sinônimo "ALMA". Essa "alma" abrange todos os pensamentos, tantos os conscientes como os inconscientes. A doença de Alzheimer descaracteriza a pessoa. Despersonifica o ser humano. Tira-lhe todo o conjunto de normas e conceitos éticos adquiridos ao longo de sua existência. Mudam a personalidade de forma assustadora.

SIGNIFICADO DE DEMÊNCIA: Enquanto na linguagem popular a palavra demência tem a conotação de loucura, em medicina é usada com o significado de declínio adquirido, persistente, em múltiplos domínios das funções cognitivas e não cognitivas. O declínio das funções cognitivas é caracterizado pela dificuldade progressiva em reter memórias recentes, adquirir novos conhecimentos, fazer cálculos numéricos e julgamentos de valor, manter-se alerta, expressar-se na linguagem adequada, manter a motivação e outras capacidades superiores. Perder funções não cognitivas significa apresentar distúrbios de comportamento que vão da apatia ao isolamento e à agressividade. Doença de Alzheimer é a forma mais comum de demência neurodegenerativa em pessoas de idade.

MANIFESTAÇÕES NEUROPSIQUIÁTRICAS A SEREM OBSERVADAS: Falta de memória para acontecimentos recentes; Repetição da mesma pergunta várias vezes; Dificuldade para acompanhar conversações ou pensamentos complexos; Incapacidade de elaborar estratégias para resolver problemas; Dificuldade para dirigir automóvel e encontrar caminhos conhecidos; Dificuldade para encontrar palavras que exprimam idéias ou sentimentos pessoais; Irritabilidade, suspeição injustificada, agressividade, passividade, interpretações erradas de estímulos visuais ou auditivos, tendência ao isolamento.

QUANDO RECONHECER OU NÃO OS SINTOMAS: Os sintomas às vezes compõem um "conjunto de atitudes" do comportamento, sinais que passam despercebidos diariamente. As pessoas se detêm apenas ao fato da perda da memória quando alguém não consegue lembrar uma data, o nome do sobrinho ou seu próprio telefone. E enquanto ele, o doente, puder lhe enganar usando de estratégias para que você não perceba essa falha na memória, muita coisa já aconteceu. Dá desculpas que não fez algo ou não foi ao trabalho ou não pagou o que devia porque não teve tempo. Vestiu a mesma roupa suja há três dias seguidos, às vezes descosturada ou rasgada e diz que não encontrou outra melhor, estava com pressa. Tem sempre desculpas. E você não percebe essa negligência da parte dele com as tarefas do dia-a-dia. Só quando realmente ele fizer coisas que chamem muita atenção! E esses "sinais" podem levar anos.

PREVALÊNCIA NA POPULAÇÃO: Calcula-se que de 10% a 15% das que atingem 65 anos já apresentem sinais da enfermidade. Daí em diante, a prevalência cresce 3% ao ano, até atingir quase 50% das que chegam aos 85 anos. Estima-se que, no mundo, haverá 22 milhões de portadores desse mal em 2025. Certas famílias apresentam prevalência mais alta da doença de Alzheimer, mas podem surgir casos esporádicos da doença em famílias que nunca os apresentaram. Cerca de 10% a 60% dos pacientes com histórico familiar da doença apresentam instalação precoce e evolução rápida dos sintomas. Neles, foram descritas mutações de genes presentes nos cromossomos 1 e 14. Nas formas de Alzheimer que se instalam mais tardiamente, parece estarem envolvidos outros genes, ligados à apolipoproteína E, envolvida no transporte de colesterol e na reparação de defeitos celulares.



EVOLUÇÃO DA DOENÇA: A doença de Alzheimer costuma evoluir de forma lenta e inexorável. A partir do diagnóstico, a sobrevida média oscila entre 8 e 10 anos. O quadro clínico costuma ser dividido em quatro estágios: Estágio 1 (forma inicial): Alterações na memória, personalidade e nas habilidades visuais e espaciais; Estágio 2 (forma moderada): Dificuldade para falar, realizar tarefas simples e coordenar movimentos. Agitação e insônia; Estágio 3 (forma grave): Resistência à execução de tarefas diárias. Incontinência urinária e fecal. Dificuldade para comer. Deficiência motora progressiva; Estágio 4 (terminal): Restrição ao leito. Mutismo. Dor à deglutição. Infecções intercorrentes.

QUADRO ANATOMO-PATOLÓGICO: Os doentes apresentam cérebros atrofiados de forma difusa, mas não uniforme; as áreas mais atrofiadas são principalmente as que coordenam atividades intelectuais.
Ao microscópio notam-se perda de neurônios e degeneração das sinapses. Duas alterações patológicas dominam o quadro: as placas senis e os emaranhados neurofibrilares. Placas senis são formadas pelo depósito de uma proteína (beta-amilóide), no espaço existente entre os neurônios. Já, os emanharados neurofibrilares são formados por uma proteína (tau) que se deposita no interior dos neurônios. As alterações cerebrais precedem as manifestações clínicas por 20 a 40 anos.

QUADRO CLÍNICO: A doença se instala de forma insidiosa, com queixas de dificuldade de memorização e desinteresse pelos acontecimentos diários, sintomas geralmente menosprezados pelo paciente e familiares. Inicialmente é comprometida a memória de trabalho, memória de curta duração que nos permite exercer a rotina diária. Os pacientes esquecem onde deixaram as chaves do carro, a carteira, o talão de cheques, o nome de um conhecido. Com o tempo, a pessoa larga as tarefas pela metade, esquece o que foi fazer no quarto, deixa o fogão aceso, abre o chuveiro e sai do banheiro, perde-se no caminho de volta para casa. Caracteristicamente, esses “esquecimentos” se agravam quando o paciente é obrigado a executar mais de uma tarefa ao mesmo tempo. A perda de memória é progressiva e obedece a um gradiente temporal, segundo o qual a incapacidade para lembrar fatos recentes, contrasta com a facilidade para recordar o passado. As primeiras habilidades perdidas são as mais complexas: manejo das finanças, planejamento de viagens, preparo de refeições. A capacidade de executar atividades mais básicas como vestir-se, cuidar da higiene ou alimentar-se, é perdida mais tardiamente.
Com o tempo a dificuldade de aprendizado se acentua. Quando colocamos o paciente diante de uma lista de palavras e pedimos que as evoque ao terminar de memorizá-las, o desempenho é medíocre. A linguagem, comprometida discretamente no início do quadro, torna-se vazia, desprovida de significado, embora a fluência possa ser mantida. A orientação espaço-visual se deteriora, criando dificuldade de orientação e de reconhecimento de lugares anteriormente bem conhecidos.
O quadro degenerativo se estende às funções motoras. Andar, subir escadas, vestir-se, executar um gesto sob comando, tornam-se atividades de execução cada vez mais problemática.
A percepção das próprias deficiências, preservada no início, fica gradualmente comprometida. Na fase avançada, mutismo, desorientação espacial, incapacidade de reconhecer faces, de controlar esfíncteres, de realizar as tarefas de rotina, pela alteração do ciclo sono/vigília e pela dependência total de terceiros são sintomas característicos da doença Dos primeiros sintomas ao óbito a sobrevida média é de 6 a 9 anos.

TRATAMENTO MEDICAMENTOSO: O processo degenerativo na doença de Alzheimer leva à deficiência de diversos neurotransmissores, moléculas que atuam na condução dos estímulos nervosos transmitidos de um neurônio para outro. Hoje, procuramos corrigir esse déficit com dois grupos de drogas: os inibidores das colinesterases e os antagonistas dos receptores de glutamato.
A acetilcolina é um neurotransmissor importante nos mecanismos de memória e aprendizagem. Na doença de Alzheimer, como conseqüência da degeneração dos neurônios, ocorre redução da atividade da acetilcolina por ação de enzimas que a degradam. Essa perda de atividade está associada ao declínio cognitivo. Embora várias drogas estejam sendo testadas, atualmente, o tratamento mais eficaz se baseia na utilização das que inibem a ação enzimática responsável pela degradação da acetilcolina (inibidores da acetilcolinesterase). Esses medicamentos têm eficácia documentada, e estão indicados no tratamento das formas leve ou moderada, com a finalidade de ajudar os pacientes a manter a habilidade de executar as atividades de rotina por mais tempo e de preservar a capacidade de relacionar-se com os familiares e amigos.

RESPOSTA AO TRATAMENTO: A doença é incurável. O objetivo da terapêutica é retardar a evolução e preservar por mais tempo possível as funções intelectuais. Os melhores resultados são obtidos quando o tratamento é iniciado nas fases mais precoces. Numa doença que progride inexoravelmente, nem sempre é fácil avaliar resultados. Por essa razão, é fundamental que os familiares utilizem um diário para anotar a evolução dos sintomas. A memória está melhor? Os afazeres diários são cumpridos com mais facilidade? O quadro está estável? O declínio ocorre de forma mais lenta do que antes da medicação? Sem essas anotações fica impossível avaliar a eficácia do tratamento.

EFEITOS COLATERAIS: As drogas pertencentes ao grupo dos anticolinesterásicos podem provocar sintomas gastrointestinais, circulatórios e alterações relacionadas com o sistema nervoso central. Na maioria das vezes, esses efeitos indesejáveis são passageiros, de curta duração e podem ser controlados ou desaparecer quando o médico reajusta as doses. Em caso de toxicidade, entre em contato com seu médico. Não suspenda o tratamento por conta própria.
DURAÇÃO DO TRATAMENTO: Uma vez iniciado, o tratamento precisa ser reavaliado pelo médico ao completar um mês, mas deve ser mantido obrigatoriamente por um período mínimo de 3 a 6 meses, para que se possa ter idéia da eficácia. Enquanto a resposta for favorável, o medicamento não deve ser suspenso.

MITOS SOBRE ALZHEIMER: O maior deles é, Alzheimer = a perda de memória. Algumas pessoas preocupam-se em ter Alzheimer só pelo fato de esquecerem certas coisas. Para a confirmação da doença é necessário muita pesquisa, uma rigorosa avaliação do paciente, que deve ser feita por um especialista no assunto e esta confirmação é feita pelo descarte de outras doenças já que a única forma de chegar a um diagnóstico conclusivo seria através de biópsia do tecido cerebral que não é realizada pelos riscos implicados. E somente a exclusão de determinadas doenças que apresentem os mesmos sintomas - falta de memória, agressividade, depressão, agitação -, que podem ser facilmente confundidas com esquizofrenia, deficiências vitamínicas, câncer, diabetes, problemas na tireóide, infecções urinárias, sífilis crônica, meningite etc., poderá fornecer um "provável" diagnóstico positivo.
Mas é preciso prestar atenção no conjunto de atitudes. Não se apegar somente a falta de memória. Perda de memória rápida é comum em casos de estresse diário. Nada que uma boa noite de sono não cure.

MUDANÇAS IMPORTANTES: A casa, a mobília e os costumes das pessoas mudam conforme os acontecimentos da vida. “A chegada de um bebê, por exemplo, transforma a rotina da casa e a decoração, além de exigir muita atenção. Com os idosos, não é diferente. Eles precisam de condições especiais para que vivam com conforto e segurança”. Esses cuidados aumentam quando o idoso é portador da doença de Alzheimer (DA), uma doença degenerativa e progressiva que atinge o cérebro e resultando, inicialmente, na perda da memória. No estágio mais grave, a doença pode comprometer totalmente o paciente e levá-lo à morte. Deve haver proteção em escadas e janelas, tapetes e cortinas devem ser retirados para evitar quedas e tornar o ambiente mais arejado e claro, retirar espelho se a pessoa chegou a uma fase em que se confunde com o reflexo devido a perda de referência pessoal, ficar sempre atento a itens de risco na cozinha como facas, garfos, botijão de gás, dentre outras atitudes.

“ACIMA DE TUDO RESPEITAR A PESSOA PORTADORA DE ALZHEIMER QUE, MESMO NÃO SE RECONHECENDO ENQUANTO PESSOA, É UM SER HUMANO DIGNO DE BOAS ATITUDES.”

Somos lobos


por JÔZE PAIVA (MEDICINA UGF)

Eles _ OS LOBOS_ são capazes de percorrer várias longas distâncias a cerca de 10 quilômetros por hora e são conhecidos por atingir velocidades próximas a 65 quilômetros por hora durante uma perseguição; portanto, o que seria um período de seis anos de estudos de graduação para cada integrante da ALCATÉIA Medgama?

As garras das patas dianteiras de cada lobo são maiores do que as patas traseiras, onde há um quinto dedo que está ausente nas patas traseiras. As patas do lobo-cinzento são capazes de pisar facilmente em uma variedade de terrenos, especialmente na neve, mas também se adaptam a repúblicas diversas, bibliotecas e baladas ou qualquer outro ambiente que envolva o curso de Medicina da UGF, o que inclui o habitat OREM.

Existe uma fina camada de pele entre cada dedo, o que lhes permite deslocar sobre a neve mais facilmente do que comparativamente às presas prejudicadas. Coitados, então, dos problemas que ameaçarem surgir no cotidiano de um lobo, dos times opostos, das outras delegações que se tornam presas fáceis da ALCATÉIA!

Os lobos cinzentos são digitígrados, que com a grandeza relativa de suas patas, ajudam a distribuir bem o seu peso em superfícies nevadas. Pelos e unhas reforçam a aderência em superfícies escorregadias e os vasos sanguíneos especiais mantém as patas aquecidas do congelamento, protegidas das eventualidades diárias da vida de um estudante de Medicina. Certamente essas eventualidades aparecem, mas são facilmente deixadas para trás. Lobos não escorregam diante das dificuldades. Lobos não deixam os amigos, a família, os membros do grupo escorregarem!

Glândulas odoríferas localizadas entre os dedos de um lobo deixam vestígios químicos e marcadores para trás, ajudando o lobo caminhar de forma eficaz sobre grandes extensões enquanto simultaneamente mantém os outros informados do seu paradeiro. Se andar é preciso, se necessário é viver no presente rodeado de livros e esporte, que venham os nossos conosco! Que nós sejamos também por eles e sempre unidos!

Os lobos têm pelos volumosos consistindo de duas camadas. A primeira camada é feita de pelos resistentes que repelem água e sujeira, repelem o que de ruim surgir pelo caminho, desde a saudade às más intenções dos que rodeiam, repelem até a derrota ou um pequeno fracasso passageiro frente a uma disciplina considerada de difícil resolução em prol de muitas vitórias.

A segunda camada de pelos é densa e resistente à água que o isola. O subpelo é espalhado pelo corpo na forma de grandes tufos de pelos no final da primavera ou início do verão (com variações anuais). Um lobo, muitas vezes, esfrega-se contra objetos, como pedras e galhos para incentivar a pele a soltar os pelos para fora. Incentivar o surgimento de tudo o que é positivo e derrocada dos impecílios.

O subpelo é geralmente cinza, independentemente da aparência do revestimento exterior for. Lobos têm pelages distintas no inverno e no verão que se alternam na primavera e no outono. É preciso se adaptar às intempéries que exige o curso Médico e assim cada lobo da UGF faz.

Lobos têm poderosas focinheiras compridas que ajudam a distinguem-nos dos outros canídeos, de outros meros animais e até dos chacais. Lobos são especiais, principalmente porque apesar da solidão, fazem de todos do grupo apenas “um”.

Embora tenha um olfato relativamente fraco quando comparado a outros canídeos, o lobo possui uma audição bastante apurada, ao ponto de ser capaz de ouvir a queda de folhas das árvores durante o outono. Sua visão noturna é a mais avançada da família dos canídeos. Capaz de escutar o que outros não escutam, capaz de ver o que outros não vêem, sente o que outros não sentem e, ao final, torna-se vitorioso. Caça sem se permitir ser caçado.

Os lobos são grandes anfitriões da raiva. Embora os lobos não sejam reservatórios da doença, eles podem pegar de outras espécies. É preciso que sejam então temidos caso sejam subjugados, caso sejam desafiados. Se tratados com candura, são afetuosos.

Vivem unidos, fazem o que for preciso pelo bem de todos e, com todo o contexto de suas características, cada lobo é capaz de superar inúmeros obstáculos em busca de um objetivo maior. Assim é cada um dos estudantes de Medicina da UGF, lobos dotados de força e raça. A garra, a personalidade, a vontade de vencer rompem qualquer barreira. A união e tradição Medgama são o principal guia e fonte de sobrevivência. Que assim seja em todas as gerações, que todos compreendam e façam valer a pena o significado da ALCATÉIA!

Férias!


Estou em recesso das aulas neste momento. Na verdade, gosto mais de dizer FÉRIAS, parece representar um período mais longo.
Teoricamente deveria estar dormindo e dormindo e com muito tempo livre, mas não é isso que está acontecendo. Estou mais acordada que antes de iniciar na Medicina, gosto de aproveitar cada instante ao lado da família. Tornei-me uma pessoa mais perceptiva e descobri que, quando se é estudante de Medicina, nas férias também há estudos.
Não há tempo livre e isso é realmente bom. Entre sorrisos e gestos amorosos de todos, entre o aroma do café da minha mãe e brinquedos do meu filhinho, entre as palavras do maridão, vou vivendo e vão passando os dias.
Quando não há ninguém por perto por já ser noite, acolho-me nas letras escritas em livros ou artigos científicos, mesmo que seja apenas para pesquisar alguma suspeita diagnóstica de algum caso de família.
As férias, se não fossem para dedicação exclusiva à família que penso em breve levar na mala para o RJ, não precisariam mais existir, pois sinto que não é preciso descanso das tarefas que não fatigam a alma. Quando é por prazer que se vive, quando o prazer invade os dias, seja nas relações familiares, no estudo ou na profissão, difícil é abdicar desse prazer.
E meu prazer agora é igual à multiplicação da família pela faculdade de Medicina que aprendi a amar.
Nas noites livres estudo... Achei que fosse impossível no recesso tão sonhado para dormir até perder meu sono atrasado de vista. Só aprendi que aquele sono atrasado que me adiantou (adiantou as férias, já que terminei mais cedo o período) não é mais uma necessidade.
Esqueci daquelas noites em claro nas quais me via na cama entre cobertores como em um delírio. Só não esqueci que o delírio que me impulsionou até agora e que não me deixou desistir do sonho, fez com que tudo se tornasse realidade. Não esqueci que é por cada membro da minha família que estudo e tento me tornar uma pessoa melhor. Não esqueci que muitos dos pacientes que verei e irei tratar um dia sonham apenas com o alento de sua dor, tornarei o sonho de inúmeros deles realidade algum dia!

20 junho 2011

Dos ombros ao coração


Já era tarde quando Eliana chegou em casa, depois de um dia cansativo. Foi um dia atípico, iniciado bem cedo na enfermaria do hospital, seguido pela UTI, e finalmente, pelo consultório lotado de pacientes. Deixou sua bolsa pesada e seu estetoscópio na pequena escrivaninha branca, e sentou-se na cadeira vazia, onde uma almofada já lhe esperava desde a manhã. Estava muito cansada. Seus olhos fundos teimavam em se fechar, mesmo que seu rosto se pronunciasse com constantes bocejos. Parada ali naquela sala desarrumada olhou para seu estetoscópio já antigo, remendado por fitas adesivas desgastadas, já sem uma das olivas. Para um estetoscópio tão freqüentemente usado, oito anos já era tempo demais. Quase sem perceber, interrompendo o silêncio do apartamento vazio, esquecendo-se de que se dirigia a um objeto inanimado, sussurrou:

- É meu amigo, acho que já trabalhou demais. Está chegando sua hora de descansar e deixar de se incomodar com estas fitas adesivas que o apertam. Amanhã mesmo, a caminho do hospital, vou trocá-lo por outro, porém mais leve. Até meus ombros têm ficado cansados demais.

E dito isso, calou-se, respeitando o cansaço que a mantinha sentada.
Sei que não me escuta, apenas ausculta através de mim. Mas como após estes longos oito anos, dois meses e vinte e dois dias, você se dirigiu a mim... sinto-me no direito de responder. Hoje foi um dia difícil para mim também. Sei que não reparou, mas aquele último paciente em que você não conseguiu auscultar nenhuma alteração nos pulmões... sinto em decepcioná-la, mas havia sim estertores crepitantes bilaterais em bases. Não consegui transmiti-los a você. Uma das fitas adesivas que mantinha meu tubo de condução íntegro foi vencida desta vez por uma pequena fissura, que há tempos insistia em aparecer. Neste momento, em que me encontrava entre você e o paciente, tive a consciência exata que havia chegado ao fim. Amanhã, no mais tardar às dez horas, horário no qual sempre nos encontramos na UTI, você perceberia que algo estaria errado. Como a conheço bem, sei que questionaria se os seus pacientes hipervolêmicos teriam misteriosamente compensado em apenas 24 horas, ou se finalmente, eu já não lhe serviria mais. Fico ao menos aliviado que tenha decidido me afastar sem que percebesse esta última ausculta ineficaz. Queria encerrar este meu caminho com mérito. Não gostaria de gerar em você sequer uma mínima decepção.

Lembro-me muito bem da primeira vez que a vi, ao abrir aquela caixa não mais escura, onde fiquei por tantos e tantos meses. Sei que não foi paixão à primeira vista, já que demorou a me escolher, encantada pela cor cinza grafite daquele outro. Mas no final das contas, adorei que tenha me escolhido por minha maior capacidade de trabalho. Concordo que beleza não é tudo mesmo. E sinceramente, se tivesse optado por aquele cinza, já estaria com outro há muito tempo. Ele era tão fraquinho, coitado. Há uns dois anos atrás, imaginei tê-lo visto em outros ombros. Temi amargamente que o visse e desistisse, antecipadamente, de mim. Talvez eu seja mesmo mal resolvido até hoje em relação a isto, já que ao contrário de você, assim que a vi, sabia que não mais poderia ser de ninguém.


Então agora digo o porquê de estar com esta sensação estranha, de tristeza misturada com alívio, de não mais poder acompanhá-la em seus dias. Estou muito cansado, mas não de você. Durante todos estes anos me orgulhei do nosso trabalho. Nos primeiros anos de faculdade foi difícil lidar com sua angústia ao auscultarmos um paciente. Estava com minha máxima capacidade, mas mesmo assim, por muitas vezes você ficava descontente. Até que sempre, no dia seguinte, após sua insistência em passar horas debruçada nos livros de semiologia, finalmente sentia-se aliviada ao entender o que escutávamos. E assim, eu ia aprendendo com você. Lembro bem que nesta época auscultava seus pais todos os dias para seu treino. Até hoje, quando os vejo, sei exatamente como são por dentro... pelo menos de todos os seus ruídos internos eu sei. Tudo bem, falarei sério agora. Vejo que está prestes a tomar coragem e se levantar, abandonando a mim e a esta almofada amarela tão desgastada e feia. Lembro bem que ao comprá-la não era assim tão ictérica. Era marrom. Sim... deveria aposentá-la também. Não faz jus ao repousar as suas costas... e ainda fica me olhando a noite toda quando me deixa aqui. Ainda bem que nunca me deixou em cima dela.

Fico feliz em termos trabalhado juntos. Observei, ao longo destes anos, que minha espécie tem sido cada vez mais subutilizada. Escutei por aí, que o primeiro estetoscópio foi desenvolvido em 1816, por um francês chamado René Laennec. Fico pensando quantas mudanças ocorreram desde então. Imagino que naquela época devíamos ser tão valorizados, que só poucos nos possuíam. Devíamos ser úteis para alguns diagnósticos, mas acredito que o tratamento não devia ser muito diferente, já que existiam poucas opções para complementar o diagnóstico. Fiquei sabendo em sua aula de radiologia que por volta de 1895, foi realizado o primeiro raio-X, o que foi ótimo para confirmar o que auscultávamos na prática. Imagino ter sido este um momento crucial para nosso processo de auto-afirmação. Antes, não sabíamos se estávamos certos. E de lá pra cá, muitas mudanças ocorreram. Nunca fomos abandonados ou negligenciados, pelo contrário, desde então temos sido o instrumento mais difundido entre os médicos. Mas sinto que esta minha geração, e certamente as que virão posteriormente, tem descansado mais por sobre os ombros cobertos por impecáveis jalecos. Alguns colegas meus, inclusive, nem saem mais de casa. Ficam esquecidos dentro de gavetas fechadas, distantes de qualquer tórax ou abdome. Ficam lá, escondidos ao lado dos esfigmomanômetros. Acho que esta situação só não está mais grave devido às freqüentes campanhas contra a Hipertensão Arterial.

E é diante desta triste realidade que só tenho a agradecer a você, que sempre me deu valor. Tudo bem que por alguns dias preferiria ter ficado em casa, na gaveta fechada, não tendo que me debruçar em seus ombros tão cedo e tomar vários banhos de álcool durante o dia. Mas nada era pior do que ter que aguardá-la ansiosamente em alguma bolsa, até que retornasse de suas férias. Como eu sofria diante do silêncio... e de seus batons que insistiam em marcar meu diafragma. Não me lembro de você ter me esquecido um dia sequer em casa, tanto no período da faculdade, como agora, em sua residência médica. Sei que naquele dia, em que fiquei em cima desta mesa aqui – sendo observado por esta almofada ictérica – não foi por esquecimento seu. Você não iria me utilizar em uma sala de aula mesmo. Prefiro não acreditar que tenha usado outro colega meu neste dia. Mas... não falarei sobre isso. A propósito, no dia seguinte, não fiz aquilo de forma planejada, por mágoa ou revolta. Sua nota foi ruim na prova porque seu professor é mais experiente e auscultou uns roncos que também tinha auscultado, mas que você não conseguiu denominar. Não fui desleal com você.

O momento em que mais tive medo – desespero, seria o termo mais adequado – foi ao ouvir que você considerava se especializar em cirurgia. Pensei que os prováveis quatro anos que ainda viveria ao seu lado, após o término da faculdade, seriam abreviados de forma dura e injusta. Felizmente você mudou de idéia e, para minha alegria – e grande trabalho também – resolveu se decidir por uma especialidade clínica. Mesmo com tantos clínicos por aí, ainda assim, reconheço que foi imensa a minha sorte ao ter ido morar especificamente em seus ombros. Imagino quantos dos meus encontram-se neste momento sendo utilizados apenas como um acessório do imenso estereótipo criado sobre a figura do médico. Fico feliz de não ser apenas o estetoscópio de um estereótipo. Isso seria pouco para mim.

Ao mesmo tempo, como disse há pouco, sinto-me aliviado. Não sei qual será o destino de minha espécie, neste caminho que sua profissão está tomando. Sei que posso estar exagerando – costumo mesmo exagerar os sons – mas me preocupo se daqui a alguns anos ainda seremos úteis. Os médicos cada vez confiam menos no que auscultam, no que examinam, no que ouvem sair da boca de seus próprios pacientes. Estão presos em uma insegurança tamanha, que dá lugar aos pedidos de exames desnecessários, que substituem até o raciocínio, fruto de noites e noites de estudo em cima dos livros. É como se estas noites nunca tivessem existido. Não digo isso me sentindo revoltado com os colegas da espécie dos exames de imagem, de urina, de sangue e outros. Sei que são instrumentos também importantes, mas para complementar. Tenho sentido que nós estetoscópios, nem para complementar servimos mais. Não... não sou melodramático. Sou realista.

Sinto-me honrado em ter ficado ao seu lado neste período, que certamente foi o mais importante de sua formação profissional. Tive presente em suas dúvidas, em seus erros e acertos, em muitos diagnósticos bem feitos, e também nos que provavelmente deixamos de fazer. Sentirei falta dos seus ouvidos, hoje bem melhores do que há oito anos. Sentirei falta também das vezes em que fechou a porta e pediu silêncio para aperfeiçoar meu trabalho. Das vezes em que o raio-X confirmou o que esperávamos e principalmente, das diversas vezes em que optou por nem pedir tantos exames. Sinto-me honrado por ter caminhado ao seu lado – ou melhor, em seus ombros – tendo percorrido um caminho paralelo ao que sua profissão insiste em seguir. Sentirei falta de minha amiga semiologia também. Espero que ela sobreviva, não tendo que se apertar cada vez mais, em livros resumidos.

Espero que não desanime e persista assim, sem esquecer que você é o maior dos instrumentos da medicina... muito maior do que todos estes que a tecnologia nos impõe. Que não esqueça as centenas de noites mal dormidas, as milhares de páginas já lidas, e quantos pacientes examinou. Não vou ser falso em desejar que seja tão feliz com o próximo estetoscópio da mesma forma como fomos juntos. Temo ser esquecido.

Só peço que não se esqueça do nosso momento mais bonito. Daquele, em que auscultamos pela primeira vez, as batidas nítidas de um coração acelerado. O coração daquela menina tão pequena que me segurava com força insistindo em me tirar de seus ouvidos. Um momento único, mágico, e eterno. Não tenho memória, por isso não posso dizer que jamais a esquecerei. Minha memória está em seus ouvidos, para o resto da vida, sempre que for auscultar alguém. De certa forma, estarei presente em seus ouvidos, para sempre. Os sons que entram por seus ouvidos, são as batidas do meu coração.



Após um longo tempo presa em reflexões, e inibida pela força do cansaço, Eliana levantou-se devagar, e seguiu em direção ao banheiro com esperança de que a água quente da banheira pudesse aliviar a incômoda dor em seus pés. Certamente, este foi um dia muito cansativo. E ainda teria que acordar uma hora mais cedo no dia seguinte, caso contrário, não haveria tempo para comprar um novo estetoscópio. Seguiu ao longo do corredor pensando se conseguiria jogar o velho estetoscópio fora.

Autoria de Andrea Pio