
Teu corpo sem vida, despido e frio, teu rosto anônimo e tua inércia se entregam às minhas mãos, como se quisessem oferecer-me a chave dos enigmas que a minha sede de conhecimento precisa desvendar. E meu bisturi ousou perturbar teu descanso.
Ali, naquele momento, nada mais poderia ser feito por ti, pois tu já havias partido. Porém, ultrapassado a barreira da morte, teu corpo ajudou-me a compreender melhor os mistérios da vida, os saberes transcritos em cada centímetro teu e que tornarão possível ainda o salvar de inúmeras vidas em teu nome. E por isso te agradeço neste dia de finados.
Agradeço e rogo pelo teu descanso, faço uma oração que talvez não haja quem faça neste dia por ti, companheiro eterno e veículo da ciência. Sem saber se na vida foi lembrado, sem possuir conhecimento qualquer a respeito dos dias teus, se transcorreu em família ou na ausência dela, se um trabalho te ocupou a mente ou se um amor povoou teus pensamentos, afirmo-te apenas que valerá a pena o que involuntariamente tem sido realizado através de ti.
Descanse em paz, deixe que agora e sempre nos cansemos incansavelmente em favor do conhecimento e das vidas que poderão ser salvas!